História das Adivinhas
O que é, o que é: vive batendo em você, mas é bom para a sua saúde? Resp. O Coração
O que é que cai na água e parte? Resp. O navio
Sou comprida e amarela / Tenho um nariz vermelhinho; / Se me deixam muito em pé, / Vou sumindo, vou sumindo, / Resta só um bocadinho. O que sou eu? Resp. A vela
O primeiro jogo de adivinhação inventado pelo ser humano, e também o provável primeiro jogo de palavras da História, faz parte do folclore oral da maioria dos povos desde tempos imemoriais, assim como as lendas e os mitos. Segundo o “Guinness”, o Livro dos Recordes, o mais antigo quebra-cabeças matemático também é uma adivinha, encontrada num papiro egípcio datado por volta de 1650 a.C.
Quando eu estava me dirigindo para St. Ives (tradução inglesa), encontrei um homem com sete esposas. Cada esposa tinha sete sacos, e em cada saco havia um gato. Cada gato tinha sete crias. Crias, gatos, sacos e esposas, quantos estavam indo para St. Ives? Resp. Um (eu)
A tradição oral remonta as adivinhas, pelo menos, ao Egito Antigo. Exemplares remotos desse jogo também foram encontrados pelos historiadores em textos escolares da Babilônia, datados de muitos séculos antes de Cristo. São adivinhas semelhantes às da atualidade, com temas triviais, aparentemente destinadas às crianças:
Quem engravida sem conceber, quem engorda sem comer? Res. A nuvem
Apesar do caráter leve e divertido desses exemplares e das adivinhas modernas, na Antigüidade a arte da adivinhação e especialmente o jogo das adivinhas estavam associados a assuntos mais sérios e até mesmo trágicos. A começar pela mais antiga adivinha de todas (segundo o escritor grego Plutarco e o poeta latino Ovídio), aquela proposta pela Esfinge aos viajantes que passavam pela estrada em direção à cidade grega de Tebas, capital da Beócia. Do alto de um rochedo, a Esfinge, que tinha corpo de leão, cabeça de mulher, rabo de serpente e asas de águia, propunha a adivinha e matava todo aquele não conseguisse resolvê-la. . A “adivinha da Esfinge” foi imortalizada por Sófocles em seu drama “Édipo Rei”, escrito no século IV a.C. “Decifra-me ou te devoro” era o lema do monstro. Édipo foi o primeiro a acertar a resposta. Ao ouvi-la, a Esfinge teria se jogado ao mar, desaparecendo para sempre (ou se jogado do alto do rochedo, em outra versão da lenda, morrendo instantaneamente). Eis a adivinha, em uma de suas muitas versões:
Qual é o animal que, de manhã, caminha com quatro pernas, à tarde com duas e à noite com três, e é mais fraco quanto maior o número de pernas que utiliza? Resp. O homem. De manhã corresponde a fase criança, quando engatinha, a fase adulta, quando anda com as duas pernas, e a velhice, quando usa a bengala.
Por seu feito, Édipo recebeu as recompensas prometidas àquele que derrotasse o monstro: o reino de Tebas e o casamento com a rainha, Jocasta por acaso, mãe de Édipo, o qual havia sido abandonado ainda criancinha pelo pai, Laio, ao ouvir de um oráculo que o filho o mataria. O que, aliás, Édipo já havia feito, no caminho para se encontrar com a Esfinge, por causa de uma discussão boba sobre o direito de passagem num ponto da estrada. Mais tarde, ao ouvir de um outro oráculo as atrocidades que havia cometido involuntariamente, Édipo extraiu os próprios olhos e exilou-se para sempre de Tebas. É importante ressaltar que a história de Édipo passou-na Grécia, enquanto a famosa estátua da Esfinge de Gizé situa-se no Egito. Esse monumento data do reinado de Quéfrem, na Quarta Dinastia, tendo sido erigido entre 2575 a.C. e 2465 a.C.
Também trágica é a história que relaciona o herói bíblico Sansão (século XII a.C.) às adivinhas. Uma espécie de Rambo a serviço do Senhor, Sansão matou 30 homens apenas para retirar-lhes os “vestidos” (essa é a palavra do texto bíblico); incendiou 300 raposas para que, postas a correr, devastassem os trigais dos filisteus; matou 1000 homens tendo como única arma uma mandíbula de jumento; e dizimou outros 3000 filisteus ao fazer desabar uma construção, arrancando as duas colunas que a sustentavam. Tudo isso por causa de uma adivinha. A história é contada no livro dos Juízes (14-16). Judeu de origem, Sansão vivia entre os filisteus, que dominavam Israel naquele tempo. Apaixonou-se por uma filistéia e, contra a vontade do pai, decidiu desposá-la. Durante o banquete com os inimigos, propôs-lhes uma adivinha, como era de costume, prometendo dar aos seus 30 companheiros um vestido ou uma túnica para cada um, caso resolvessem o desafio em 7 dias, tempo de duração da festa, mas exigindo o mesmo pagamento caso fracassassem:
Do que come saiu carne, e do forte saiu doçura?
A inspiração para a brincadeira tinha sido o cadáver de um leão que Sansão encontrara a caminho do banquete, no qual as abelhas haviam produzido um favo. No terceiro dia, os filisteus desistiram de encontrar a solução e apelaram à mulher de Sansão para que obtivesse dele a resposta. Depois de muito chorar, a filistéia conseguiu a proeza no último dia. Quando Sansão foi cobrar a vitória, recebeu como resposta outra adivinha:
Que coisa é mais doce que o mel, e que coisa é mais forte que o leão?
A Bíblia diz: “Apoderou-se dele o espírito do Senhor”. E iniciou-se a carnificina relatada acima. A segunda passagem bíblica relativa às adivinhas refere-se a Salomão (século X a.C.), o mais sábio dos reis hebreus. Sua capacidade de decifrar enigmas teria sido o motivo oficial da visita da Rainha de Sabá, reino do sudoeste da Arábia (Crônicas II, 9), durante a qual Salomão foi testado com sucesso. Mas a razão mais provável deve ter sido um interesse comercial mútuo, pois a Rainha chegara a Israel “levando consigo grandes riquezas e camelos, que iam carregados de aromas e de grande quantidade de ouro e de pedras preciosas” e, na partida, carregou para seu reino outro tanto de mercadorias valiosas naquele tempo. Embora a Bíblia não mencione nenhuma adivinha ou enigma proposto pela Rainha de Sabá a Salomão, um texto hebraico publicado em 1430 pretendeu apresentar algumas delas, guardadas pela tradição oral:
Há algo que quando está vivo não se move, mas quando sua cabeça é cortada, ele se move?
Menos feliz teria sido Salomão em seu desafio de adivinhas com o aliado Hiram, rei do Tiro, segundo o historiador romano Flávio Josefo. A cada adivinha não respondida, o derrotado deveria pagar uma certa quantia. Ao perceber que Salomão já lhe privara de um montante considerável, Hiram apelou para a ajuda do sábio Abdemão, que primeiro conseguiu resolver as adivinhas propostas pelo rei hebreu e depois inverteu a situação, propondo enigmas que Salomão não pôde decifrar.
Os Adivinhos Esopo, Homero e Virgílio
Várias cortes da Antigüidade possuíam um adivinho que tinha a função de prever o futuro, além de ser um perito na arte da decifração de enigmas verbais. É célebre a história de Calchas, adivinho de Agamenon, um dos heróis da Guerra de Tróia. Num duelo com o adivinho grego Mopsos, Calchas não soube resolver vários enigmas propostos pelo colega e rival, vindo a morrer de desgosto pela desmoralização pública que lhe foi imposta. Máximos Planudes, um monge grego (c. 1260 – 1310), relatou em “A Vida de Esopo” uma longa disputa de adivinhas travada no século VI a.C. entre o rei babilônio Licero e o rei egípcio Nectanebo. O primeiro era sempre o vencedor, graças à ajuda de Esopo (autor de “A Raposa e as Uvas”, entre mais de 300 fábulas), então adivinho oficial da corte. Entretanto, o uso mais freqüente das adivinhas na Antigüidade revestiu-se de um caráter sagrado, e não competitivo. Em muitas culturas, a adivinhação era uma atividade exercida em rituais religiosos e reservada exclusivamente aos sacerdotes iniciados nos chamados mistérios. Essa atividade estava intimamente associada à solução dos mistérios da vida. O mais famoso local de adivinhações dessa natureza foi o templo de Delfos, situado na Grécia. Nele, as pitonisas, sacerdotisas de Apolo, “recebiam” orientações daquele deus em forma de versos enigmáticos, que eram interpretados para os consulentes, pessoas de importância na sociedade grega. Ainda na Antigüidade, outro nome famoso ficou associado às adivinhas. Se for verdadeiro o relato do escritor grego Plutarco, Homero, a quem são atribuídos os poemas épicos “Ilíada” e “Odisséia”, teria morrido de insatisfação ao não conseguir resolver uma adivinha. Um dia, ao perguntar a alguns pescadores de Ios o que eles haviam trazido do mar, Homero teria recebido como resposta:
Aquilo que pegamos, deixamos para trás, e trouxemos tudo o que não pudemos pegar. Há duas respostas aceitas para esta adivinha: Resp. Pulgas ou Piolhos
O poeta Homero Nos banquetes da Grécia Antiga, as adivinhas eram um elemento obrigatório, servindo como um teste da habilidade intelectual de certos convidados, ao mesmo tempo que proporcionavam diversão aos demais. Uma reunião em especial merece destaque: a dos Sete Sábios da Grécia, cultores do enigma como recurso didático. Um desses sábios, Cleóbulo de Lindos, teria sido incluído no grupo graças à autoria desta adivinha:
Um pai teve doze filhos, e cada um desses filhos teve 30 filhos e filhas, os filhos de cor branca e as filhas de cor negra, e um deles morreu a cada dia, e apesar disso tornaram-se imortais.
Na Roma Antiga, as adivinhas eram um divertimento importante no feriado religioso da Saturnália, homenagem ao deus Saturno realizada entre 17 e 24 de dezembro. Semelhante ao Natal moderno, embora bem mais liberal que a festividade cristã, a Saturnália consistia de banquetes onde havia troca de presentes e eram propostos jogos sociais, entre eles o das adivinhas. Além das perguntas tradicionais, uma outra forma do jogo baseava-se na redação de adivinhas em pequenos cartões, descrevendo de forma enigmática os presentes que seriam oferecidos. O poeta romano Virgílio (século I a.C.), autor da “Eneida”, incluiu em suas “Églogas” uma adivinha proposta por Dametas a Menalcas, que ainda não possui uma resposta consensual:
Dize em que lugares, e te haverei por grande Apolo, / O céu não tem mais de três côvados?
Acreditam os estudiosos que a difusão das adivinhas deveu-se muito aos rituais e cerimônias das comunidades antigas. Durante a realização de casamentos, velórios e festas da colheita, os habitantes se reuniam e desafiavam uns aos outros com as novas adivinhas que haviam aprendido ou criado. Também as longas noites de inverno dos países europeus eram em parte aproveitadas para a prática desse passatempo a mesma circunstância climática que contribuiria, a partir do século XVIII, para a difusão dos enigmas e das charadas. Curiosamente, uma das “épocas de ouro” das adivinhas deu-se durante o curto governo do imperador romano Nero (54-68), mais conhecido por suas excentricidades, truculência (mandou matar a esposa e a mãe) e pela suposta autoria intelectual do incêndio que destruiu Roma.
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes (Extraído do site: www.roteiroromanceado.com)